Bitcoin: os dois lados da moeda virtual

Claudia Gasparini/ Revista Exame

bitcoin

Dinheiro é um objeto de fé. Afinal, quanto vale um pedaço retangular de papel e tinta se não acreditamos que ele é uma nota de 100 reais?

Sempre funcionou dessa maneira: a sociedade de cada época “combina” que um determinado material ou objeto intercambiável será o meio físico que carrega valor econômico. E assim, há milênios, o comércio se perpetua sobre uma abstração.

Na Roma Antiga, o tema dessa “ficção coletiva” era o sal. Realizavam-se transações, trocavam-se bens e até se recebiam salários (a palavra não é coincidência) em quantias da substância marinha.

Mais tarde, seria a vez do ouro se consagrar como um importante veiculador físico de valor. Irônico é pensar que, a rigor, o metal que enlouqueceu colonizadores espanhóis e portugueses e encorajou o desbravamento da Costa Oeste dos EUA é só mais uma pedra amarela disponível na natureza. Em si, o ouro não tem nada de especial: foi só por causa da sua escassez que ele se transformou num objeto de desejo, movendo vidas, espalhando mortes e mudando o curso da História.

Com o surgimento da internet, a evolução das plataformas que carregam riqueza desembocou em um novo tipo de moeda. Desprovidas de existência física e geridas exclusivamente por meio de computadores, Bitcoin, Ripple e Litecoin são as líderes de um universo de mais de 80 moedas digitais atualmente em circulação no mercado.

É verdade que, do sal dos romanos ao ouro dos espanhóis, no fundo todo dinheiro é “virtual”, no sentido de que todos esses materiais sempre funcionaram como uma representação simbólica de um bem.

Mas moedas virtuais como a Bitcoin nasceram com uma proposta radicalmente diferente, nunca experimentada em séculos de convenções econômicas.

Isso porque desbancam instituições e sistemas básicos de produção, gestão e transferência de capital. Extração de minerais do solo? Impressão de notas? Lastro em ouro? Adeus a tudo isso: o ciclo do dinheiro digital se efetua exclusivamente em processos de programação de dados.

O conceito por trás do sistema é a criptografia. De forma muito simplificada, o que os criadores da Bitcoin fizeram foi atribuir à moeda um código de programação muito difícil de ser quebrado, fica disponível na internet. Para “extrair” ou fabricar o dinheiro – no jargão, “minerar” Bitcoins -, você precisa encontrar a chave para descobrir essa “mensagem secreta”.

O processo se assemelha à penosa tarefa de explorar e pesquisar o solo em busca de uma jazida de ouro. Por ser extremamente difícil e custoso, o trabalho de decodificação da mensagem só pode ser feito por computadores poderosíssimos, máquinas de alta performance que chegam a custar 30 mil dólares.

É por meio desse processo de “mineração” que as Bitcoins são introduzidas no mercado, e então podem ser usadas em transações comerciais, também operadas via matemática pura.

O dinheiro é fabricado e transferido sem qualquer intermediação de uma autoridade central. Gerida pela rede, essa riqueza é desprovida de fronteiras ou nacionalidades, prescindindo da participação de governos, bancos e instituições financeiras. Se quiser e tiver capital para isso, você é capaz de produzir Bitcoins e negociá-las diretamente com outras pessoas.

Entre os argumentos dos entusiastas da moeda, está o fato de que a transação financeira por Bitcoins ocorre de forma ágil, simples, anônima e sem taxas, facilitando a vida das partes envolvidas e deixando menos espaço para a burocracia.

Mas a mesma ausência de regulações que garante à moeda digital fãs fervorosos também atrai críticos ferrenhos.

Muitos enxergam no sistema uma instabilidade preocupante (o preço da moeda oscilou, entre julho de 2013 e janeiro de 2014, de 100 a 1000 dólares), para não falar nos desafios à investigação de crimes financeiros dentro de uma estrutura sem qualquer controle. A reputação do mercado, aliás, sofreu um baque recente depois que Charlie Shrem, criador de uma plataforma para negociar Bitcoins, foi preso por lavagem de dinheiro.

Boa ou má notícia, o crescimento das Bitcoins é um fato. Nos EUA, cada vez mais lojas físicas aceitam pagamento na moeda virtual. Enquanto isso, a adoção do dinheiro pelos brasileiros ainda engatinha, mas desperta interesse de cada vez mais investidores, compradores e vendedores.

O Banco Central ainda não regula a moeda, por não considerá-la suficientemente significativa para o mercado nacional.No entanto, o primeiro caixa eletrônico para operações com Bitcoins no Brasil foi instalado na mais recente edição da Campus Party, importante feira de tecnologia e cultura digital que aconteceu em São Paulo na semana passada.

A pergunta que falta responder é: ainda confiaremos de olhos fechados em propostas como a Bitcoin?

É difícil dizer, mas credulidade não falta à humanidade. Quando pensamos em riqueza, estamos acostumados a usar a imaginação: uma sofisticada televisão de plasma de 51 polegadas pode ser dada a um estranho em troca de uns pedaços meio amarrotados de papel – tudo sem despertar um pingo de espanto ou desconfiança em ninguém.

No momento, tudo é especulação. Mas ao que tudo indica, se os desenvolvedores das moedas digitais conseguirem estruturar o sistema de forma a torná-lo seguro e estável, mais cedo ou mais tarde vamos acabar (com o perdão do trocadilho) comprando a ideia.

***

Imagem adaptada de Hoa Dao 91(Flickr/Creative Commons)

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Sobre Rodini Netto

Jornalista de profissão, editor dos Blogs Meandros da Política (Brasil), Versão Brasileira (Europa). Diretor do Jornal Diário de Piraquara Consultor de Comunicação Digital
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