Coluna do José Fernando Nandé: As pecadoras e os pecados do prefeito na Curitiba que perdeu o sorriso

Passo pela Boca Maldita e vejo um maluco com a Bíblia nas mãos e vestido com tosco terno a pregar o fim do mundo. O Sol do meio da tarde queima e arde como o inferno que o pregador descreve ao apontar os dedos para as mulheres que passam com suas vestes mínimas que, para ele, são sinais dos grandes pecados e do fim dos tempos. ´´Pecadoras!“, grita o pobre diabo, em voz firme e monstruosa, sacudindo o livro sagrado.
Rio e prossigo. Na Praça Osório, observo as gurias e os guris menores abandonados. Gente que não é mais gente, e que figura apenas como mais um problema burocrático para os desatentos burocratas da prefeitura, números das tabelas da miséria e indiferença. Gente que já vive seu final de mundo nas drogas e no abandono criminoso promovido por quem deveria estar cuidando dela.
Há lixo e miséria por todo o lado, descuido de quem deveria preservar a cidade, outrora conhecida pela sua limpeza e civilidade. Ao largo, vejo uma mulher procurando algum policial, chora porque acabara de ser roubada, ali na praça, em plena luz do Sol, o qual tanto tem brilhado em nossos dias. Vejo que algumas boas almas param e se compadecem da mulher assaltada. Alguém tira do bolso um lenço… Ela chora. Vou adiante e penso que nem tudo está perdido. Os políticos podem ter feito nossa cidade perder sua alma e generosidade, mas o povo ainda as conserva, porém em tristeza e na desconfiança. Nem mesmo à luz do dia, ao vento que nos refresca e à vida dá prazer, ninguém mais anda com tranquilidade pelas praças e ruas de nossa querida Curitiba. Há medo nos olhos das pessoas. Temor até mesmo de ajudar nossos semelhantes que tanto sofrem amontoados pelas calçadas, sabe-se lá se mortos ou dormindo.
Vejo agentes públicos nas ruas. Estão presentes, porém ausentes dos problemas da cidade. Na burocracia, cada um faz sua parte como prioridade, ofícios determinados: uns vendem vales de estacionamento, outros aplicam multas… Entretanto, logo em seguida, vejo uma Kombi da prefeitura negando tudo isso, estacionada sobre a calçada com o seu pessoal batendo papo, avesso aos problemas de nossa população que acabara de testemunhar. De imediato penso ser aquilo uma grande ilusão, estão ali de enfeite, sem iniciativa, sem a mínima noção do sofrimento dos cidadãos.
No café encontro duas amigas. Reclamam do calor, da falta de conforto nos ônibus, de seus atrasos. Uma me diz que na internet consta um horário e no ponto do ônibus o que acontece é outro horário, com atrasos e descasos. A outra amiga, interessada no conforto dos turistas, me fala do abando geral da metrópole – ´´Zé, as ruas estão esburacadas, fontes sujas, com problemas de conservação, monumentos que de há muito não são limpos. Curitiba está suja, envelhecida, mal cuidada. Dá tristeza fazer um passeio por aí e vê-la assim. Dia desses, no caminho do Parque Barigui, parei naquela fonte, entre a Mario Tourinho e a Padre Agostinho. Não faz ideia de como estava. Triste, muito triste vê-la assim, decadente. A cidade não merece, muito menos nós. O prefeito Fruet é uma decepção, está perdido, não sabe o que faz!´´. E a outra amiga comenta – ´´Curitiba agora tem a cara dele, vive de sorriso dissimulado; na realidade perdeu o sorriso…´´
E assim a conversa prossegue. Estamos abismados com o que fazem com Curitiba, com o estrago irremediável em suas marcas de limpeza, ordem e organização, que sempre foram motivos de orgulho para todos nós, para os que amam realmente esta cidade.
A conversa prossegue até chegar um outro amigo natural de Nova Iorque e que se encantou por Curitiba. O gringo aqui mora há anos, inclusive conta com a nossa cidadania. Por um longo tempo ele nos escuta até que pede a palavra e pondera com seu sotaque ianque que nunca perdeu, mas em bom português – ´´Minha antiga cidade também passou por isso, mas tivemos uns administradores machos (risos e gargalhadas das minhas amigas), ousados e com muita iniciativa e vontade para acabar com a bagunça…´´
Fiquei mais um pouco no café a comentar o que tinha visto naquele dia e ouvindo os relatos dos meus amigos de coisas semelhantes que aconteciam e se repetiam pela cidade. Descaso, incompetência e abandono, as palavras que mais escutei.

Entretanto, não obstante o tom apocalíptico dos diálogos, no íntimo estava esperançoso, pois todos no fundo acreditavam e acreditam que Curitiba ainda tem solução, mas não com o prefeito que está aí, porque falta a ele a razão do riso de minhas amigas no viril combate aos nossos sérios problemas. Aliás, lindas pecadoras, vestidas à maneira de deixar o aquele louco pregador do apocalipse da Boca Maldita bem contrariado. ´´Pecadoras!´´ – lembrei-me, e olhei para elas, rindo muito e sem dizer nada.

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