Coluna do José Fernando Nandé: Prefeitura de Curitiba abandona população de rua à própria sorte

José Fernando Nandé escreve às quartas para o Blog Meandros da Política

José Fernando Nandé

Curitiba está vestida de Verão. O Sol, esse quase desconhecido ente universal, que muito brilha acima do Trópico de Capricórnio, vem dando seu ar da graça e grassa abundante quase todos os dias por nossas esburacadas ruas, por nossas populosas favelas e dá, generosamente, sem paga, absolutamente sem nada em troca, sua luz e conforto para todos e, em especial, para aqueles que nada mais possuem: os habitantes das ruas, os esmoleiros esfaimados, mendigos, os usuários de drogas, os desocupados, enfim, os que esperam alguma atenção da espetacular máquina da indiferença administrativa da Prefeitura Municipal. Afinal, algo aqui havia de ser gratuito e o Sol tomou para si essa tarefa, de iluminar e aquecer, em seu radiante colo, os esquecidos; de dar de si alguma energia para essa gente tão desesperançada e que vê nas ruas seu lar, ofício, calvário e sina.

Mas nem mesmo o Sol suporta por muito tempo a situação de abandono que castiga nossa amada cidade. Em suas tardes, geralmente ele chora. Choro gutural de quem muito sofre; lamúria antecipada por ribombantes trovoadas, coriscos aterradores, ventanias… Seu choro, depois desses sinistros sinais, é o aguaceiro que se mistura ao desespero do choro dos desgraçados. Dessa gente que, pela falta de misericórdia e atenção, padece num inferno medonho. Na chuva e nas suas lágrimas, nosso povo esquece o quente Sol e volta ao sofrimento ordinário e no aperto por sob as marquises dos prédios busca proteger-se: encolhe-se, se cobre com jornal, caixas de papelão, restos de trapos, com o que for possível arranjar, e ali dorme, antecipando o sono da paz do túmulo que em horizonte não muito distante lhe acena em calafrios nalgum indigente cemitério… Dorme e vigia na calçada friorenta e molhada e tenta assim descansar seus ossos e suas misérias tão evidentes, as quais o Poder Público minimiza a existência em flácidos discursos desprovidos da mais simples das comiserações e racionalidade. Impiedosos, os agentes do governo e algozes de seu povo tiram dos mais estapafúrdios silogismos a lógica dos imbecis. Dizem que o povo esfarrapado prefere a rua, escolhe sofrer a deslocar-se para um abrigo público…

Ora, ora, como se fosse natural do homem optar pelo sofrimento. Jamais! –- Homem, mulher, criança, velhos, inválidos, o que seja e que possa ser chamado de humano neste mundo faria tal opção, pois o desejo de autopreservação — tendência de proteger a própria vida ou integridade — é instintivo até mesmo entre os animais, da mais elementar das moneras até os organismos mais complexos. Ninguém, ser algum, coloca sua vida em risco, a não ser se for por uma causa extrema. E o que nos parece evidente, se aqueles que estão em situação de risco recusam o auxílio da Prefeitura, é que esse auxílio não corresponde exatamente ao que esperam para salvaguardar suas vidas. Algo está errado e muito errado, pois o espírito de sobrevivência desse povo em abandono nas esquinas não vê nas ações da Prefeitura elementos que lhes ofereça, com absoluta segurança, as condições necessárias para seguir vivendo e não apenas sobrevivendo.

Isso posto, caso ainda haja algo de humanidade naqueles que são responsáveis pelo destino dos mais necessitados; e ainda, considerando demonstrada a necessidade de mudança urgente no direcionamento das políticas públicas até agora adotadas em relação a essa população em situação de risco permanente, é que vimos suplicar, de toda nossa alma, que se faça a luz de imenso Sol nos corações desses agentes públicos. Pois, ficar com esse discursinho para lá de demagógico e de receita pronta, engendrado por quem não tem compromisso com a cidade, é condenar nossa gente à morte. E a isso, ao descarte deliberado de seres humanos, nunca vamos nos calar.

Definitivamente, a rua não é opção. A rua para esse povo é mais confiável do que a conversa mole de quem tem sua confortável cama para dormir todas as noites, mas que se nega a fazer um exame de consciência, por orgulho e vaidade; por falta de calor humano, experiência em lidar com gente, e boa vontade.

José Fernando Nandé é jornalista, escritor, editor de livros, especialista em Economia do Trabalho (UFPR)e mora há 40 anos em Curitiba.

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Sobre Rodini Netto

Jornalista de profissão, editor dos Blogs Meandros da Política (Brasil), Versão Brasileira (Europa). Diretor do Jornal Diário de Piraquara Consultor de Comunicação Digital
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